viagem

Ônibus cheio e lento: feriado, pencas de crianças e velhinhos/as, poucos ônibus nas linhas, passageiros em todas as paradas. Depois de quase uma hora em pé, sento e pergunto para a bolsa colorida que se posicionou ao meu lado se queria que a segurasse. A dona me respondeu um simpático “não precisa, obrigada”, me olhando nos olhos e sorrindo. Tinhas os cabelos lisos, finos e curtos, pelos ombros. O rosto delicado, um decote quase grande, mas ainda comportado, a calça respingada de tinta, não sei se propositalmente ou não. Não tinha muito mais de vinte anos, se tivesse vinte. Nas unhas grandes o bastante para não me permitir advinhar suas preferências sexuais, usava um esmalte lilás descascado.
Continuou olhando e, para deixar passar um casal apressado, entrou entre o vidro e o banco onde eu estava sentada, colocando suas pernas entra as minhas. Me desconcertou completamente. Ficava olhando nos meus olhos e eu quase sem ar, com o coração na boca, sem saber o que fazer. Ao lado, uma velhota insistia em puxar papo comigo, mas não conseguia desviar a atenção do rosto da moça. Imagino que minha cara tenha sido de tamanha surpresa e perplexidade que ficou lá poucos minutos mais (segundos, talvez) e voltou a ficar em pé do meu lado.
A velha começava a arrumar suas coisas para descer, ela sentaria ao meu lado e bingo! Nossos olhares ainda se cruzavam, mas o dela talvez mostrasse algum incômodo. A velha saiu, ela foi junto, um pouco mais para trás, para olhá-la, precisaria virar o pescoço.
Não poderia deixá-la ir embora e nunca mais encontrá-la! Precisava do telefone dela. Como? Entregar meu aparelho e pedir para ela anotar? Eu não tinha a menor coragem, mais ainda depois de não ter sentado ao meu lado. E eu não tinha nenhuma caneta!
– Você tem uma caneta?
Um senhor se prontificou. Recusamos tacitamente a oferta, sem nem olhar para ele. Ela procurava impaciente. Achou, me entregou. Anotei meu nome e número no papel, ia devolver com a caneta, mas não consegui. Ela me sorriu. Entendi que tivesse visto o número, depois percebi que de onde estava não era possível. Comecei a amassar o papelzinho, pensando em como fazer para entregar. Desço com ela?
Não fiz nada. Ela desceu pouco depois, atravessou a rua correndo e parou do outro lado, procurando com os olhos e vendo o ônibus partir. Eu fiquei olhando também.

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