Amor de carnaval

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(Cena do filme Le Ballon Rouge, 1956, curta de Albert Lamorisse)

Desde há muito o procurava em todos os lugares aonde ia. Naquele dia, especificamente, desejou encontrá-lo tão profundamente que se tornou praticamente realidade a possibilidade. Não tinham mais qualquer contato, não havia qualquer modo de procurá-lo: já não morava mais no mesmo prédio, o telefone mudou, não tinha seu e-mail, nem amigos em comum… O acaso era o único com quem poderia contar e se apegou ferrenhamente à mera esperança.

Era novamente segunda-feira de carnaval e as chances, de fato, eram ínfimas. O procurou como nunca no mar de gente imenso, que seus olhos não conseguiam dar conta do fim. A noite chegou, avançou, e a escuridão deixava sua busca cada vez mais difícil, seu semblante mais triste, uma frustração tão grande tomava conta dela.

Curiosamente, não de propósito, na volta pra casa dela fez exatamente o mesmo caminho que percorreram daquela vez, para a casa dele. Lembrou-se de cada passo que deram juntos, cada esquina em que trocaram beijos, da sensação de andar nas nuvens, da felicidade tão grande daquele encontro, da vista noturna da janela do oitavo andar e do olhar inédito sobre a cidade que ela conhecia tão bem. Lembrou-se da noite que passaram, dos toques dele, do gosto, do cheiro, da respiração, da boca sedenta.

Só conseguia andar devagar, revivendo, voando feito balão de ar. No entanto, a realidade ao seu lado, chão e teto, a puxava pela mão, apressando seus passos e censurando seu vôo.

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