O tal amor livre no universo liberal

A moça do Café Feminista levanta pontos importantes sobre a dificuldade em praticar o amor livre. O texto usa como base de análise o patriarcalismo, o capitalismo e o sexismo e me levou a pensar nas relações não monogâmicas entre swingers.

No universo swinger, os encontros geralmente acontecem sobre supervisão masculina e, mais que objeto sexual, a mulher – hipersensualizada – é transformada em moeda de troca, ou em isca para outras mulheres, com o propósito principal de satisfazer os fetiches do homem. O mesmo cabe para os raros encontros nos quais a mulher participa sozinha, atendendo o fetiche masoquista de se saber traído.

Embora a sensualidade da mulher seja estimulada e valorizada, sua sexualidade ainda é fortemente controlada, por meio da afirmação de padrões – desde o de beleza até o da submissão e exposição femininas – do meio “baunilha”.

A problematização da monogamia fica no âmbito do individual e privado, abordando apenas a negociação e administração do ciúme, da possessividade e não a estrutura social que naturaliza a monogamia e a exclusividade. No discurso swinger o casamento continua a mesma instituição blindada, imune às relações extraconjugais extremamente superficiais desenvolvidas com outras pessoas. A traição, assim, é se relacionar livremente, sem o conhecimento – e participação – do outro, é se entregar, se permitir apaixonar.

Neste ponto, o adjetivo “liberal” utilizado para designar os casais que praticam a troca e os ambientes onde ela ocorre vem bem a calhar. Trata-se exatamente de liberalidade, de generosidade, de partilhar – atos típicos que efetuamos com as coisas – e não de liberdade.

Desse modo, essas relações, que aparentemente subvertem a ordem posta, mostram-se profundamente conservadoras, uma vez que ocorrem num universo catártico e não no mundo cotidiano, onde devem ser construídas as mudanças.

Abordagem

– Nossa, que princesa!

Como a D. Encrenca que vive em mim não gosta de deixar nada quieto:

– Se fosse pra sua mãe você não falava isso, né, mocréio?!

– Mocréia é você!

– Ah, desculpe, pensei ter ouvido “princesa”, mas tanto faz, você continua mocréio.

– Vadia

Vi o metal dourado reluzente no anelar esquerdo:

– Coooorno!

Exaltou-se:

– Piranha!

– Pinto mole!

– Baranga!

– Brocha!

Ia aumentando o tom de voz, cada vez mais irado:

– Sapatão!

– Viado…

– Vagabunda!

– Enrustido!

– Puta!

– Ejaculação precoce, certeza!

– Recalcada!!!

– Ih, isso aí é xingamento de mulher, hein? Seu pinto deve ser menor que meu dedo mindinho. Não vou mais perder meu tempo!

Saí andando a passos firmes, como se nada tivesse acontecido, enquanto o galante rapaz continuava a vociferar elogios!

— x —

O mais curioso do “diálogo” é a natureza dos xingamentos… enquanto os dirigidos a mim, mulher, pretendem ofender por trepar livremente, os dirigidos ao homem ofendem por supor que lhe falta virilidade.

Não é tesão, é paixão!

Image(foto encontrada na internet)

Estou apaixonada platônica e enlouquecidamente. É frequente, patológico, uma adição, ousaria dizer. Certamente apreciaria muito menos a vida, não fosse esse motor.

Como as primaveras, minhas paixões são um constante renovar… Ficar eufórica ao ver a pessoa, ruborizar, voz vacilante, olhar baixo, timidez, quase a adolescência novamente. São, além disso, revisitar antigos amantes seja na semelhança ou no contraste.

São ainda inovação, nas pequenas descobertas que se vai fazendo do outro conforme aumenta a intimidade, em cada aprendizado cotidiano: não entrar de sapatos no quarto, comer abacate salgado, travesseiro entre os joelhos para dormir, usar o ventilador como repelente, não tomar vento depois do banho.

Intimidade e paixão combinam? Aqui começa a parte perigosa da coisa. Não consigo levar de uma maneira que não seja arrebatadora e deixo a pessoa ocupar todos os meus poros, minhas células, minha cabeça. Sinto uma ânsia, uma avidez por estar perto, beber no outro a novidade.

São também lamentar… quando não há correspondência, quando a pessoa vai embora sem sequer esperar o café, os sonhos…

Não representam o oposto, quiçá nem ameaça ao amor. Talvez uma pequena pausa, uma suspensão muito momentânea e cada vez menor, pois, embora doces, são efêmeras feito suspiro.

A monogamia, portanto, só pode representar um grilhão, uma prisão, uma castração. Não uma castração qualquer, mas aquela própria do presbítero: que inflige culpa pelo desejo. Uma poda drástica em meus galhos mais floridos, mais vivos, mais viçosos.

Por que raios alguém pede seu telefone e NÃO liga?

Lerdeza

Não sou fumante e nem pretendo ser, mas algumas horas invejo um tantinho o alívio que as pessoas parecem alcançar quando saem para fumar um cigarro.

O dia de trabalho tinha sido exaustivo e me permiti dar uma fugidinha mais cedo, pois sequer tinha almoçado.

Num acaso levemente planejado encontrei um menino que tenho paquerado sem muita dedicação: Tudo bem, tudo bem, muito trabalho, cansada, etc, etc. Como tava de bobeira mesmo, resolvi esticar o assunto:

– Tô louca para tomar uma cerveja.

– Sabe que não gosto de cerveja…

Idiota, era para você dizer “Vamos!”.

– Hum…

– Cê costuma abrir a geladeira pegar uma latinha e tomar, assim, por gosto?

– Sim. Mas ultimamente tenho sido um pouco mais exigente com a qualidade.

– Nunca nem tentei tomar essas cervejas mais caras, penso que deva ser tudo igual.

– São bem diferentes.

– Ouvi dizer que no bar X eles têm uma carta grande.

– Oba, vamos?!

– Vamos, vamos marcar!

Cê tá me dispensando ou é só lerdo mesmo?

– Ah, aliás, e aquele nosso passeio? – perguntou.

É, aparentemente, é lerdeza mesmo…

– Ué, só preciso saber um pouco antes, pra me planejar.

– Vamos deixar marcado então, próximo sábado dá?

Agora eu também vou fazer um pouco de doce:

– Hum, tá meio em cima… Domingo?

– Pode ser, mas se for ruim pra você a gente deixa pra outro dia…

Gente, como pode?! Era para você dizer “Fechado!”, tonto.

– Não, domingo tá ótimo!

Ah, bobinho… Tenho tanto a te ensinar!

Confissão

Não tenho na cidade qualquer confidente para falar deste assunto em particular, pois por aqui sou a garota certinha que tem o namorado estável e está em vias de se “casar”.

A verdade é que tem um cara interessantíssimo me paquerando! Eu tenho uma mania doente de me apaixonar pelas pessoas até que elas me decepcionem, portanto tô gostando demais da situação.

O rapaz, que é um contato relativamente novo, provavelmente não sabe do meu namoro, tampouco sei muita coisa dele, exceto uma ou outra informação que consegui stalkeando o facebook. Além disso, o véu da paixão além de melhorar consideravelmente o que se vê, mostra apenas a parte boa do outro.

Não sei se o cara é um canalha que costuma fazer isso com todo mundo, não sei se é casado, namora ou qualquer coisa do gênero. Aparentemente não é do tipo que assume relacionamento – isso é um péssimo sinal, embora muito oportuno, na ocasião – mas tem investido dando uma bandeira que quebra qualquer prudência, mesmo porque sou deveras atraente e deve alimentar certa vaidade em me exibir como troféu.

Tenho evitado frequentar locais onde sei que estará, mas sinceramente falta muito, MUITO pouco para que ceda às investidas. Se isto acontecer, deveremos ser extremamente discretos ou meu futuro “casamento” será ex antes mesmo de acontecer.

cidade pequena #2

Tinha saído tarde do trabalho, precisava passar no supermercado se quisesse tomar café no dia seguinte. Passou pela prateleira de vinhos e escolheu um caprichado, pra impressionar na sexta-feira. Finalmente conseguira marcar algo… tão séria, o deixava hesitante sempre que pensava na ideia.

De repente a viu e ficou meio sem saber o que fazer. Ela sorriu e ele foi em sua direção. Pela primeira vez a encontrava fora do ambiente de trabalho.

Reparou que ela estava muito mais à vontade e o encontro foi leve, embora ela continuasse a olhá-lo daquele jeito desafiador. Era o desafio que mais o atraía naquela mulher… ela tão mais jovem, tão sagaz, tão competente, tão bonita, tão corajosa!

Conversaram rápido, ousou convidá-la para tomar o vinho dali a pouco.

Ela negou sorrindo e deu uma piscadinha incrível!

Piscou de volta, pensou na sexta e sentiu o volume crescer dentro da calça.

cidade pequena

depois de semanas paquerando o cara e achando que ele não queria nada comigo, finalmente me convidou para jantar, na sexta.

marquei funilaria e pintura no salão, comprei batom, perfume, lingerie e vestido novos, ansiosíssima.

na quarta cheguei ao supermercado e adivinhem? lá estava o bonitão! antes que eu pudesse me esconder disfarçar meu cabelo bagunçado e minhas roupas largas, veio em minha direção…

puxou papo, simpático, e tenho certeza que olhou para minhas unhas sujas e sentiu meu cheirinho de dia inteiro trabalhando, mesmo assim me convidou a sair dali e tomar um vinho com ele.

lembrei da depilação marcada pro dia seguinte, da calcinha com elástico frouxo, do chinelo no meu pé:

– nos vemos na sexta! – piscadinha batuta.

devolveu a piscadinha e nos despedimos.

melhor que a encomenda

Melhor que ligar, veio pessoalmente fazer o favor. No entanto, sem o tempero etílico do último encontro, estava muito mais sério e comedido.

Em duas semanas teremos uma viagem juntos, suponho que seja a chance imperdível.

Não conta!

Contaram para ela um segredo, ela não o reproduziu. A mesma pessoa, sabendo que ela era confiável, propagou o tal “segredo” a quatro ventos.

Contaram outro, ela comprometeu-se com o silêncio e a situação se manteve assim por uns dias. No dia de todos saberem, o confidente a denunciou e a situação entre si e o grupo ficou péssima.

Contaram mais um, ela não firmou qualquer acordo, mas também não contou. Quando todos já sabiam, se passou por desinteressada e perdeu o emprego.

Descobriu algo sobre si que não gostaria de contar, ficou angustiada e ansiosa, mas manteve o bico calado. Quando já não dava para esconder, levou uma bronca por não ter contado antes.

Do quinto segredo queria fugir, não saber, preferia que não contassem… mas, distraída, num repente o recebeu…

Morreu em seguida, soterrada de segredos.

Previous Older Entries Next Newer Entries